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Qualquer forma de transmissão de conhecimentos – desde a tradição oral, passando pelos manuscritos e impressos, até chegar à mais recente via digital – é susceptível de erro. Não existem obras humanas perfeitas. Uma obra sem mácula terá, com certeza, o cunho divino. Por isso, mesmo o mais conceituado dos autores, pode estar sujeito à exposição neste pelourinho de lapsus calami. As causas desses lapsus são múltiplas e variadas e o sentenciar do seu grau de gravidade (avanço científico, tradição documental, repetição de autor anterior… até à mera estultícia) fica ao arbítrio de cada um que o ler.
1 - Lapsus Calami : A explosão do paiol da pólvora do castelo de Laboreiro:
Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho LEAL, no seu Portugal Antigo e Moderno, editado em 1874, sobre o castelo de Castro Laboreiro deixou escrito o seguinte:
“No principio do seculo XIV, cahiu um raio no paiol da pólvora, que, incendiando-se, fez ir o castello pelos ares; pelo que o rei D. Diniz o mandou reedificar”
Comentário: O uso da pólvora para fins militares nas primeiras armas pirobalísticas, vulgarmente designadas por “trons” e “bombardas”, em Portugal, surge documentado pela primeira vez nos finais do reinado de D. Fernando. Por isso, a explosão do paiol da pólvora do castelo de Laboreiro nunca poderia ter sucedido no reinado de D. Dinis, no princípio do século XIV.
Houve, efectivamente, uma explosão da torre de menagem deste castelo, que servia de paiol da pólvora, mas essa deflagração aconteceu no dia 18 de Novembro de 1659 – portanto, muito longe do reinado de D. Dinis. O documento probatório foi revelado por Alexandra Cerveira Pinto S. LIMA, Castro Laboreiro – povoamento e organização de um território serrano, Cadernos Juríz Xurés, 1996, p. 55, nota 38. Esta autora cedeu-o ao P.e Aníbal RODRIGUES (conforme o próprio confessa), que o publica na íntegra (embora com alguns erros de transcrição) no seu opúsculo “O Castelo de Castro Laboreiro”, publicado em Estudos Regionais, vol. 17, 1996.
2 - Lapsus Calami : O foral de 15 de Janeiro de 1271 – “Karta de foro de Monte de Leboreiro que vocatur padron”:
Comentário: O lapsus de adjudicar a Castro Laboreiro o foral de 15 de Janeiro de 1271 reitera-se desde 1825, com a publicação da Memória para servir de índice dos forais das terras do reino de Portugal de Franklin. O P.e Bernardo Pintor, no seu trabalho sobre Castro Laboreiro e seus forais, deixou bem claro que se tratava de um foral mal compreendido, concluindo que “A carta de foro de Padrão, que estava de fogo morto, nada tem que ver com Castro Laboreiro a não ser o anexamento à sua igreja paroquial dos dízimos eclesiásticos do referido lugar, que fica no antigo reguengo de Sistelo, nas terras de val-de-Vez”. Ou seja, os limites consignados nesse documento não deixam qualquer dúvida que se trata de Padrão de Sistelo, no actual concelho dos Arcos de Valdevez. (este documento, incompreensivelmente, não foi aproveitado em “Valdevez Medieval”, colectânea de documentos medievais deste concelho, editada pela Câmara Municipal, com coordenação de Amélia Aguiar Andrade e Luís Krus e transcrições de Filomena Melo e João Luís Fontes)
3 - Lapsus Calami : Ponte Nova ou da Cava da Velha:
Comentário: Castro Laboreiro é dotado de um extraordinário legado de pontes. A mais relevante dessas pontes (que dizem ser medieval, com restos romanos) corre sério risco de ver deturpada na sua designação original. Em qualquer escrito que hoje nos chegue à mão consta como ponte da Cava da Velha. Essa designação errónea, pelo que nos foi possível apurar, inicia-se com o processo de classificação para monumento nacional (proc. n.º82/I/176, de 18 de Março de 1983) e foi seguida pelo P.e Aníbal RODRIGUES, pontes Romanas e Românicas de Castro Laboreiro, Câmara Municipal de Melgaço, 1985. Desde aí, que saibamos, ninguém mais escreveu o nome correcto da ponte.
A designação correcta, ponte Nova ou ponte da Cavada Velha, persevera na terminologia popular e no topónimo que identifica o sítio onde está implantada. Por sugestão do NEPML, já se encontra corrigida em Manuel DOMINGUES, O Pegureiro e o Lobo, estórias de Castro Laboreiro, 2005.
4 - Lapsus Calami : José SARAMAGO, Viagem a Portugal:
Ao chegar a Castro Laboreiro, José Saramago registou:
“Castro Laboreiro chega sem avisar, numa volta da estrada. Há ali umas casas novas, e depois a vila com o seu trajo escuro de pedra velha. Bons de ver são os botaréus que amparam as paredes da igreja, restos românicos da antiga construção, e o castelo, nesta sua grande altura, com a única porta que lhe ficou, a do Sapo, alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome.”
Comentário: O prémio Nobel da Literatura comete dois erros neste curto parágrafo. Primeiro, os botaréus que amparam as paredes da igreja matriz de Castro Laboreiro foram construídos nos finais do século XVIII, por isso, nunca poderiam ser restos românicos da antiga construção. Segundo, o castelo de Laboreiro ainda preserva as três portas para o exterior – a do Sapo, a do Sol e a da Fonte – e a porta interna da vila. Por isso, tudo leva a crer que Saramago escreve com base na impressão que, como qualquer visitante, colhe do miradouro do final da Vila (donde apenas se vislumbra a porta do Sapo), sem ter palmilhado a árdua subida até à fortaleza.
5 - Lapsus Calami : Inscrição do pelourinho de Castro Laboreiro:
Recentemente, deparamos com um trabalho impresso sobre os Pelourinhos de Viana do Castelo (2002), onde se regista que o pelourinho de Castro Laboreiro tem a seguinte inscrição indecifrável: “1560 NSJC OLO”
Comentário: Se pensarmos que a inscrição contínua lá e que já foi publicada, em desenho, no início do século XX por Fernando Barreiros e lida por imensos autores, é incompreensível o que este autor viu no pelourinho de castro Laboreiro. A inscrição diz apenas “1560 ANOS”.
CONTINUA - Em construção
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